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segunda-feira, 18 de julho de 2016

RESUMO DIA 3 : RIO MODA DISCUTE INTERNACIONAL 2016 - "A MÚSICA QUE VOCÊ VESTE"

por Marília Pontes

No último dia do Rio Moda Discute Internacional 2016 – RMDI, realizado no Fashion Mall/Rio de Janeiro pelo Instituto Rio Moda, a Música foi a estrela sob o ponto de vista masculino. Para falar sobre o tema “A Música que você veste” na mesa de discussão mediada por Alessandra Marins, foram convidados Alex Sheeny (Pyramid), Rick Yates (Another Hot Brand) e Ricardo Brautigam (The BlackHaus). Além do design, os três trabalham com branding, que é o serviço responsável por criar ou desenvolver o conjunto de símbolos que identificam uma marca, seja por cheiro, música, logo, enfim, a partir todos os atributos que ela tem e eles mostram como ela pode melhor usar isso para conquistar seu público.

Rick Yates, Alex Sheeny, Alessandra Marins e Ricardo Brautigam. Foto: Marilia Pontes

Alex Sheeny é designer industrial e trabalhava na estamparia da Osklen, uma marca carioca. Após sair dessa grife, ele abriu a Pyramid com sua esposa. Ele esclareceu que todas as referências da marca vêm da música vintage dos anos 1960 e 1970, mas relacionadas com o quesito tropical a fim de mostrar como as influências externas foram traduzidas no Brasil. Além disso, ele é músico e tem uma banda. Quando questionado sobre o processo criativo da marca, Alex afirmou que a Música tem um papel importante ao longo dele, mas a referência não deixa de ser psicodélica (o que engloba os vários ritmos que usaram esse dado como marca para se sustentarem comercialmente). No que tange as inspirações gráficas da Pyramid, Alex disse que se inspiram nos vinis, pôsteres, bem como no background deles e das próprias músicas. 

Rick Yates teve o primeiro contato com a Moda na loja da Osklen em que trabalhou para pagar a faculdade de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica – PUC/RJ. Quando se formou, fez pós-graduação em Recursos Humanos e se mudou para Berkeley, nos Estados Unidos. Depois de voltar para o Brasil, montou uma banda, continuou a trabalhar com marketing, mas passou a se envolver com arte, teatro, curadoria etc. Nessa área, trabalhou nas marcas cariocas Cantão, Reserva e Eva. Atualmente, Rick faz o visual merchandising da grife carioca Mercatto. A marca Another Hot Brand tem e-commerce e um estúdio para showroom. A ideia da marca é "me dê uma boa ideia para sair de casa e essa ideia envolve uma experiência sensorial através da arte e da música". Ela surgiu enquanto Rick ainda trabalhava no Cantão, durante um brainstorming informal entre amigos sobre o que fariam se tivessem uma grife própria.

Ricardo Brautigam, também conhecido como Cadinho, é designer gráfico formado na Pontifícia Universidade Católica – PUC/RJ. Ele era sócio da marca Aüslander, cujos diferenciais eram a modelagem, tecidos e ambiente, todos inspirados no estrangeiro e no rock, justamente para fugir um pouco da identidade da Osklen, que já dominava o mercado. Por conta dessa nova atmosfera, começaram a fazer muitas festas nos desfiles. Seguia o blog do estilista Hedi Slimane – que, para Alessandra, trouxe uma nova noção de estética, inclusive para a Saint Laurent, pois tem um perfil ligado às artes e na música - e fez um desfile inspirado nele. The Freaks are Chic foi outro desfile inspirado na música e o de 2009 foi inspirado no festival Coachella, com a participação da banda Dragonete durante a apresentação. Sobre o processo criativo, no caso da Aüslander, Cadinho explicou que a trilha da coleção vinha depois, não durante esse processo. Há dois anos, ele saiu da marca e criou a The BlackHaus, em que ele faz o que fazia na Aüslander (relações públicas, consultoria e branding).

Alessandra Marins perguntou a eles quem consumia mais música na roupa e Cadinho respondeu que a mulher. No caso da Aüslander, eram vendidos produtos básicos, mas as músicas davam conteúdo às peças, que "ficam mais moderninhas". 
Sobre se os músicos vão começar a assinar coleções no Brasil, Rick respondeu que acha que sim. Inclusive, no Cantão, fizeram uma coleção cápsula com Letícia Novaes, a cantora do Lettuce. Ele gostaria de ver mais construções com novos artistas porque a colaboração ajuda a construir carreiras. Alex concordou porque a deficiência das marcas atuais é na formação de conteúdo espontâneo e a música, por exemplo, ajuda muito nisso. Quando artistas independentes participam disso, trazem uma identidade mais forte, bem específica de um dado segmento que é o seu próprio público. Inclusive, está difícil vender produtos. No próprio Facebook, só se fala de problemas e as pessoas não prestam atenção a essa forma de divulgação. A conexão do público alvo com o produto é mais forte através da música do que só através de um anúncio. Cadinho acrescentou que no Coachella vê-se muita Moda. Muitas marcas fazem coleções específicas para o festival. Muitos estilistas criam para a música. Muitos músicos têm stylists. Isabela Capeto criou para a Roberta Sá, por exemplo. 
            Quanto a como estão os festivais de música hoje, os convidados falaram que muitas marcas querem deixar de fazer desfiles para fazerem festivais, pois músicos são formadores de opinião sempre. Sobre a atividade de branding, Cadinho disse que a BlackHaus está mais nos eventos e em uma marca de Moda do que na música, por exemplo. Alex, por sua vez, desenvolve identidade visual gráfica e trabalha com cervejarias artesanais e de marcas maiores, que apoiam alguns dos festivais que acontecem no Brasil. Rick tem atendido bares e grupos de restaurantes, mas o que mais gosta de fazer é pesquisa de benchmarking para chegar numa identidade e numa persona, pesquisas com métodos de design para saber missão, pilares da marca etc., pois o branding não pode estar desassociado da meta do negócio. 
A respeito de como é o processo de branding para cada um deles, considerando a identidade própria de suas marcas tão forte, Rick acha que a questão é saber até onde pode ir e dar à marca o que ela precisa. Essa diferença gera aprendizado muito rico. Alex acha que é selecionar um trabalho que siga mais ou menos a sua própria linha e essa seleção ocorre na fase inicial de entendimento, em que ele sabe qual o objetivo do cliente com o branding. Já Cadinho gosta de desafios e começou a abraçar serviços que não tinham muita relação com ele. O processo criativo é mais intenso para poder entrar naquela atmosfera e deixar com o DNA do cliente músico. O importante é deixar o cliente feliz.

Montagem feita com as fotos expostas no slideshow do evento com cantoras que se destacam na Moda. Nicki Minaj, FKA Twigs, Madonna e Lady Gaga (em sentido horário a partir da esquerda) Montagem: Marilia Pontes

O último talkshow do RMDI contou com a participação de Fabien Guyon (relações públicas de Moda para bandas e músicos), Mary Olivetti (DJ e diretora da Rádio Ibiza) e Renato Ratier (D. Edge Records). Mediados pela jornalista Maria Prata, eles discutiram sobre o tema “Business: branding musical e empreendedorismo” mas, antes disso, Roberto Meireles, do Instituto Rio Moda, deixou sua mensagem a respeito da inteireza. Manter nossa identidade praticando a individuação ao mesmo tempo em que multiprocessamos as diversas informações recebidas incessantemente é, certamente, um desafio. Ao lado da confiança e da cocriação, é necessária a inteireza para consigamos também ser flexíveis para melhorar o ambiente que construímos e em que vivemos. Essa foi a lição final que o Instituto Rio Moda quis deixar com o RMDI 2016, apontando a Música e a Moda como campos de exercício para essa transformação.

Fabien Guyon, Mary Olivetti, Renato Ratier e Maria Prata. Foto: Marilia Pontes

Após trazer o debate sobre a música e o artista no primeiro dia, continuando com as interfaces entre Moda e Música no segundo, nada mais justo que concluir o evento falando sobre business. Assim, Mary Olivetti deu início a sua apresentação explicando que começou na Moda trabalhando na Farm e lá foi sua grande plataforma de experimentação, inclusive musical. O caso dessa marca foi inovador, pois ela percorreu vários caminhos e está inserida em diversas mídias para divulgar sua identidade e o estilo de vida de seu público-alvo. Além de ter sido pioneira em criar um setor de branding para desenvolver métodos de experiência sensorial para suas lojas e produtos, Mary Olivetti também participou de outros projetos da Farm como a Rádio Farm, a trilha sonora de cabine – cujo dispositivo foi projetado por ela, após se tornar artista gráfica -, o sound design das playlists das lojas, que é uma técnica em que se introduz pequenas interjeições entre as músicas que transportam a cliente para o ambiente da “garota Farm”, por exemplo, sons das praias de Ipanema. Após ter saído dessa marca e começado a trabalhar na Rádio Ibiza, Mary – que é DJ de house - disse que adquiriu cultura musical e conheceu diversos segmentos. Atualmente, ela se dedica a fazer a identidade musical para grifes de Moda feminina e trabalha com mais de 100 delas. As playlists que prepara são montadas a partir de um estudo minucioso com imersão em cada marca, com a construção de uma persona específica - que acrescenta um aspecto mais humano àquilo que a grife identifica -, adaptação aos temas de coleção, se houver, e em consonância com o objetivo da marca, alinhando interesses dela, da equipe de loja e dos clientes. Essas playlists são atualizadas mensalmente e ela tem dedicado especial atenção a novos músicos. A Rádio Ibiza tem 9 anos e é líder de mercado na prestação desse serviço de branding musical.  

Renato Ratier é um empreendedor da Música e da Moda. Nascido numa família que lida com agronegócio em Campo Branco (MS) e com uma mãe que é artista plástica, seu destino era permanecer nesse ramo. Contudo, ele sempre gostou de Música e tinha vários CDs que comprava na loja de um grande amigo. Então, ele montou a fanzine Sub Culture e uma loja, a Valet, e passou a organizar festas na sua cidade, tornando-se um verdadeiro agitador cultural. Renato abriu uma segunda loja, a Tilt, que atendia a um segmento mais psicodélico para o público das raves e da música eletrônica. Para tanto, ele mantinha uma confecção que atendia a ambas as lojas. No ano 2000, ele inaugurou o clube D. Edge em Campo Grande e, em 2003, em São Paulo. Renato disse que, para ele, é importante atuar em áreas diferentes, pois ser multifacetado tem relação com sua personalidade e tudo isso demonstra uma verdade que lhe é prazerosa. Contudo, se ele não tivesse uma boa equipe que o apoiasse, talvez nada disso fosse possível. Em 2015, ele fundou a grife Ratier, que participou da última edição da São Paulo Fashion Week – SPFW, e falou da necessidade de os designers de Moda se abrirem para as influências das artes, música, arquitetura etc. A última coleção dessa marca, por exemplo, foi inspirada na escola alemã de design e arquitetura Bauhaus e, na loja da Ratier, também são vendidos objetos de arte. Naquele mesmo ano, Renato abriu um restaurante – estúdio chamado Bossa em São Paulo e, em 2016, inaugurará um espaço multicultural no Rio de Janeiro.

Renato Ratier falando sobre sua grife Ratier. Foto: Marilia Pontes

Fabien Guyon é francês e atua há 15 anos como relações públicas. Sua apresentação começou com uma reflexão sobre o que se pensa sobre Moda e Música, pois são dois assuntos sobre os quais todo mundo tem uma opinião, mas, no que tange a união das duas, o espectro se torna mais amplo. A Internet foi um dos agentes que modificou essa relação nos últimos anos, mas, antes dela, é possível apontar outros highlights. Primeiramente, quando se trata de propaganda, a Música é instrumento para a Moda e vice-versa, uma promove a outra e isso independe do tempo e do espaço – por exemplo, uma canção famosa no passado, pode se tornar popular novamente graças a um anúncio de uma roupa -; nos desfiles, antigamente, os trajes eram narrados, mas hoje é impossível fazer uma passarela sem música, principalmente se ela for eletrônica; outro caso é a estratégia visual de uma banda, por exemplo, que pode ou não ser planejada e se tornar moda ou não, mas há impactantes exemplos em que o estilo de uma delas se tornou marca de um tempo; a Moda constantemente se nutre de referências musicais para criar novos designs – por exemplo, a calça da Zadig&Voltaire que tinha um bolso para palheta de guitarra – e para homenagear grandes artistas – Raf Simmons se tornou conhecido por um desses feitos -; a Música pode ser a peça chave para o DNA de uma marca de Moda – algumas delas participaram ou foram citadas no RDMI, como a Ellus. Além disso, ele disse que como relações públicas de bandas, ele é responsável pelo styling, merchandising, enfim, toda comunicação visual e musical.

Fabien Guyon. Foto: Marilia Pontes

Para concluir, Fabien levantou o questionamento sobre qual o futuro da Música, visto que ela só está gerando rendimentos para poucos grandes artistas e a combinação skinny jeans + jaquetas de couro perfecto já viraram modismo. Para ele, esse futuro está nas marcas de Moda, que devem aproveitar as oportunidades que a Música gera, principalmente porque os ciclos de cada uma são diferentes, então, sempre há como se renovar.

A ideia final deixada por Fabien ratifica o que praticamente todos os participantes do RMDI disseram, portanto, esse pode ser um caminho para superar o momento vivido no Brasil com confiança + cocriação + inteireza.

Para ver o resumo do dia 1 clique aqui
Para ver o resumo do dia 2 clique aqui

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RESUMO DIA 2 : RIO MODA DISCUTE INTERNACIONAL 2016 - "A MÚSICA QUE VOCÊ VESTE"

por Marília Pontes

No segundo dia do evento Rio Moda Discute Internacional 2016 – RMDI, realizado pelo Instituto Rio Moda no Fashion Mall/Rio de Janeiro, o tema “A Música que você veste” foi discutido na mesa composta pela stylist Letícia Cazarré, pela fotógrafa Lu Gomes e pela maquiadora e cantora Sabrina San, com a mediação de Alessandra Marins.

Sabrina San, Lu Gomes, Alessandra Marins e Letícia Cazarré. Foto: Marilia Pontes

            Letícia Cazarré contou que sua primeira formação é em Biologia e sua entrada no mundo da Moda ocorreu depois de casar e ter dois filhos. Seu pontapé inicial foi fazer um curso de consultoria de imagem online do Fashion Institute of Technology – FIT (Nova Iorque), além de workshops no Instituto Rio Moda. Com isso, ela começou a vestir algumas atrizes que ela conheceu por intermédio de seu marido, o ator Juliano Cazarré. À medida que foi ganhando experiência na profissão, percebeu que tinha uma preferência por editoriais, nos quais ela busca apostar no trabalho de novos designers. Em 2015, ela lançou a revista colaborativa ´CAUSE Magazine, que é o seu novo foco na carreira e inclui trabalhos de todos os tipos de arte, dentre elas, a Música. Inclusive, ela adiantou que a próxima edição trará Ney Matogrosso na capa!


            Lu Gomes é estilista e, posteriormente, começou a atuar como fotógrafa. Em função disso, enquanto estava em Nova Iorque fazendo registros de shows de bandas de seus amigos, ela acabou por se envolver com a atividade de styling dos seus integrantes. Nesse métier, ela conseguiu juntar Moda e Música. Além desse segmento, ela também atua na fotografia de backstage de desfiles de Moda, que ela afirma ser um ambiente mais flexível e rico para exercitar seu olhar artístico de diferentes formas, possibilitando entender melhor o funcionamento dos desfiles e a emoção que o envolve. Lu também esclareceu que a fotografia de Moda pode ser explorada de forma específica, seja no backstage, no street style ou na passarela.

            Sabrina San, cuja participação ocorreu de uma surpresa, pois não estava programada, é cantora da banda Kita e maquiadora. Além de já ter participado do programa Superstars, de competição entre bandas, ela e sua trupe também já abriram o show do Marilyn Manson em um festival de música. Nessa ocasião, por exemplo, ela contou que não sabia qual a roupa apropriada para vestir. Por conta disso, atualmente, ela conta com a ajuda de Lu Gomes e de outros amigos para se produzir, a fim de não ter somente a visão dela nas apresentações. Além disso, ela revelou que há alguns parâmetros a serem seguidos para quem está no palco – como não usar transparência ou branco, adotar padronagens grandes, poder se movimentar com a roupa – e a a banda Kita também tem uma lista de itens que não podem ser usados, dentre eles estão boné, camisa de futebol etc. Seu interesse pela Moda sempre esteve presente na sua vida, pois pesquisava sobre o assunto e escrevia artigos para o site de sua amiga. Como maquiadora, participou de desfiles e começou a entender o porquê da estética escolhida para cada um deles, o que fez com que se encantasse ainda mais por esse universo.

            Durante a discussão, Letícia Cazarré foi questionada por Alessandra Marins e disse que stylists têm dúvidas e, no caso dela, o método adotado é buscar solucioná-la sozinha através de estudo e seleção de referências. Quando se trata de uma questão sobre o guarda-roupa masculino, ela pede auxílio ao marido, que é bem informado sobre Moda, embora não tenha formação técnica na área. Ela acrescentou – confirmando com o que Carol Roquete havia dito no talkshow [MPF1] do dia anterior – que styling é um longo processo e que envolve parceria. É essencial que as pessoas se questionem sobre o que e como querem expressar uma imagem e qual o objetivo delas com isso. A partir dessa definição, a busca por marcas que representem essa identidade se torna mais prática, embora novos artistas tenham dificuldade em conseguir roupas emprestadas, o que pode indicar que o mercado ainda não está preparado para absorver essa demanda. Como resultado disso, no caso da Música, está exposto à opinião do público, é também necessário que o artista e o stylist estejam preparados para as críticas, sejam elas boas ou ruins.   

            Sobre a extensão da influência de artistas musicais na Moda, todas comentaram a recente escolha de Beyoncé como ícone fashion pelo Council of Fashion Designers of America – CFDA e comentaram o efeito semelhante causado pelo grunge, na década de 1980, como uma quebra de paradigma na Moda introduzida pela Música. Atualmente, a Geração Tombamento - que, dentre seus artistas, tem Liniker, Karon Conká e Johnny Hooker -, tem resgatado essa influência na Moda, se associando a diversas marcas que apoiam as questões pelas quais lutam: raça, gênero e sexualidade.  
            O talkshow do dia teve como tema “Pesquisa e Curadoria: música e atmosfera em Moda”, pesquisa para concepção e coleta de materiais para um acervo, editorial ou exposição e a curadoria para edição e tomada de decisões sobre aquele processo. Participaram dele Victoria Broackes (curadora sênior do Victoria & Albert Museum), Patrícia Carta (publisher da Harper´s Bazaar) e Jackson Araújo (consultor criativo), com a mediação da jornalista Maria Prata. Assim como no dia anterior, Roberto Meireles deu a primeira palavra dessa etapa do RDMI e falou sobre cocriação. Além da confiança, sobre a qual ele já tinha comentado no dia 28/06/2016, é necessário desenvolver o desapego, a generosidade e trabalhar a própria identidade quando se está nesse processo colaborativo. Embora delicado, é algo que gera muita aprendizagem e faz com que o resultado final se torne muito melhor para todos. Aquela foi uma palavra chave na concretização do RDMI e Maria Prata acrescentou que a Música e a Moda têm permitido essa troca saudável num ambiente de cocriação, principalmente porque a primeira é a expressão cultural de maior acessibilidade e alcance popular.


                                                      Maria Prata. Foto: Marilia Pontes

            Jackson Araújo, em conjunto com Hiluz del Priore, foi responsável pela curadoria do RMDI 2016. Ele explicou que, para a concepção do projeto “A Música que você veste”, foram selecionados oito movimentos musicais com reflexos na Moda no século XX, tais como:
            - dos anos 1950 até 1990, desde Elvis aos Clubkids: a rebeldia, os clubes e a transgressão;
            - woman power, com Madonna e Beyoncé: influência no comportamento, na forma da lidar com o corpo, em como se vestir, formação de legados;
            - chaming man inspirado na música homônima do The Smiths, com Justin Timberlake, Pharrel Williams: se cuida e veste bem, comportamento sociável;
            - mixed media em que pop stars começam a participar de revistas e passarelas;
            - label stars em que ações de marketing e mídia são direcionadas para promover ações de cantores criadores de linhas de peças do vestuário ou se tornam embaixadores de marcas de Moda;
            - Brazil now que ocorre com o surgimento de novos estilos brasileiros, com artistas investindo em produção de imagens (como Tiago Pethit), seja por si ou com a contratação de stylists especializados, dentre outros.
            Transgressão e o poder da autoimagem, empoderamento e a quebra de padrões de certo/errado, bonito/feito; e política sexual fazem parte do universo do jovem como atitude. Então, Jackson destacou que o objetivo da pesquisa foi compreender justamente a mudança desse comportamento, pois, como a juventude sempre foi o maior sinal da apropriação de estilos unindo Moda e Música, nela é aonde se percebe o zeitgeist (espírito do tempo). Assim, a estrutura apontada acima, ajudou a dar um embasamento teórico para o evento de 2016.


Patrícia Carta, Jackson Araújo, Victoria Broackes e Maria Prata. Foto: Marilia Pontes

            Patrícia Carta, por sua vez, acrescentou que, ao seu ver, esse movimento jovem, no século XX, poderia ser apontado desde quando o ritmo Charleston influenciou o traje feminino na década de 1920. Ela, que é publisher da Harper´s Bazaar, que foi parceira do RMDI, trouxe diversos exemplo de editoriais dessa revista que juntaram Moda e Música.


 
Patrícia Carta e apresentação sobre os anos 1970. Foto: Marilia Pontes

            Além da recente capa com Anitta, Vivienne Westwood foi lembrada por sua ligação com o punk – amplamente trabalhado em suas coleções – e seu legado hippie politizado, que influencia suas criações. Os clubes londrinos dos anos 1980 foram lembrados como locais em que os frequentadores precisariam estar bem vestidos e suficientemente interessantes para serem admitidos pelos hosts, assim como o foram os Rolling Stones que são sempre performáticos. Pharrel Williams que não é só inovador na Música, mas também exercita essa sua característica na Moda: sem falar nos tênis com a Adidas, ele também lançou uma linha de jeans feitos de garrafas PET retiradas do oceano para G-Star.
            Em sua exposição, Patrícia lembrou alguns nomes da Música e das artes que foram símbolos de estilo para a Moda, tornando-se marcos para as sinergias entre elas:
            - 1920: Josephine Baker (dançarina e é considerada a primeira mulher negra a ter reconhecimento nas artes cênicas)
- 1930: Marlene Dietrich (atriz e cantora no cinema)
- 1940: Carmen Miranda e Rita Hayworth
- 1950: Elvis Presley e James Dean
- 1960: The Beatles e Rolling Stones
- 1970: David Bowie, Janis Joplin e Jimi Hendrix
- 1980: Madonna, Boy George e Debbie Mary
- 1990: Nirvana e Run-DMC
- 2000: M.I.A., Gwen Stefani, Rihanna e Kanye West

Em seguida, Victoria Broackes deu início a sua apresentação que abordou a exposição “David Bowie IS” pela qual ela foi a curadora responsável no Victoria & Albert Museum. Vale destacar que esse museu possui um enorme acervo de Moda e, desde sua fundação, a apoiou, assim como o fez às artes e, principalmente, ao design.
David Bowie foi uma inspiração, um ícone, um artista completo e um recordista de vendas no Reino Unido. A exposição sobre ele começou a ser planejada dois anos antes de sua abertura em 2013 e já nasceu com uma proposta de ser inovadora envolvendo teatro, performances e experiências sensoriais. Nada mais justo foi o título escolhido para ela seguir essa mesma linha provocativa.

De um total de 27 mil objetos – que, dentre eles, 5 mil eram pessoais de David, que permitiu livre acesso aos organizadores -, somente 300 estavam expostos, incluindo alguns, como quadros de Andy Warhol, do Expressionismo alemão, que serviram para situar o expectador artisticamente. Além disso, da parte do figurino de Bowie, a exposição contou com peças seja de tecido da Liberty London; inspiradas no filme Laranja Mecânica (1971); criadas por Yohji Yamamoto (1989); ou baseadas no glam rock, no Dadaísmo...enfim, havia muitas referências criativas relacionadas a David. Inclusive, para poderem mostrar devidamente essas peças, o museu esculpiu manequins do tamanho desse cantor, do corpo inteiro e também dos pés, para permitiu um caimento perfeito.

A exposição foi um sucesso e está rodando o mundo inteiro. Victoria esclareceu que a escolha sobre o que entraria ou não na exposição foi a parte mais difícil, mas eles buscaram focar no processo criativo de David Bowie e optar pelos artigos que pudessem contar mais de uma história com seu contexto. Ela também contou que Bowie não participou do processo de concepção e montagem dela, mas aprovou o resultado! A próxima exposição que o museu receberá e está sendo organizada por Victoria tem como tema o final dos anos 60 e a Revolução, trazendo como pontos focais artistas como os Beatles, autoritarismos, ideais, otimismo e o impossível se tornando realidade.

Exposição “David Bowie IS”. Foto: Marilia Pontes


Veja o resumo do dia 1 clicando aqui

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

RESUMO DIA 1 : RIO MODA DISCUTE INTERNACIONAL 2016 - "A MÚSICA QUE VOCÊ VESTE"

Por Marília Pontes

Nos dias 28 a 30 de junho, aconteceu, no Fashion Mall / Rio de Janeiro, o evento Rio Moda Discute Internacional 2016 - RMDI, idealizado pelo Instituto Rio Moda, do casal Roberto Meireles e Alessandra Marins. O tema deste ano, “A música que você veste”, foi inspirado na monografia de Alessandra e conclui a trilogia iniciada em 2014 com os debates sobre “A arte que você veste”, continuado em 2015 com “O esporte que você veste”. Esses três eventos culminarão no documentário “A cultura que você veste” que está sendo preparado pelo Instituto.



            Além de workshops, mesas de discussão e talkshows de que participaram diversos profissionais influentes na Moda e na Música, o evento contou com a instalação “Alta Tensão”, inspirada no punk e que teve a intervenção do editor de moda Rogério S. Todas as peças expostas foram desenvolvidas pelos alunos do curso de Produção de Moda do SENAC/RIO, através da técnica de modelagem tridimensional chamada moulage (também conhecida como draping).

  Foto: Marilia Pontes

No primeiro dia de RMDI, participaram da mesa de discussão, que foi mediada por Alessandra Marins, Yasmin Vilhena (DJ da Rádio Ibiza e sócia da Altlaw), Marina Franco (stylist e cantora) e Antonio Schuback (stylist). Eles contaram um pouco sobre as respectivas trajetórias profissionais e comentaram sobre como a Moda e a Música se relaciona(ra)m dentro delas.
Yasmin Vilhena, por exemplo, começou como DJ, planejando playlists para diversas marcas de Moda. Para tanto, ela precisou se aprofundar na identidade de cada uma delas para, enfim, poder desenvolver seu trabalho. Após ganhar experiência na área, ela decidiu empreender através do e-commerce batizado de Altlaw. A grife é, segundo Yasmin, uma multimarcas de lifestyle, pois não vende somente produtos do vestuário, mas seu acervo compreende objetos de decoração e design, incluindo livros, máquinas fotográficas e até sabonetes. Isso porque a integração foi tanta entre esses itens e a identidade pensada para a marca, que tornou-se impossível separá-los. É justamente essa a razão pela qual a Altlaw não tem coleções, como as marcas de Moda, e depende do próprio estoque altamente diversificado.
            Marina Franco, conhecida como Marininha Franco, é formada em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, atualmente ela é responsável pelo curso de “Figurino para Cinema” no Polo de Pensamento Contemporâneo – POP, também no Rio de Janeiro. Ela falou sobre a influência do rock dos anos 80 e 90 na sua vida, em especial, do grupo Nirvana. Por ser stylist e cantora, ela enfatizou como Kurt Cobain, mesmo sem planejar seu figurino para shows ou sua postura como artista, ainda consegue influenciar gerações. Inclusive, ela relatou que já teve poucas experiências com a criação do estilo de bandas, entretanto, por conta da subjetividade que envolve esse processo, enfrentou dificuldades para casar a identidade delas e das músicas com os trajes usados nos palcos. Contudo, segundo Marina, quando o estilo musical é o pop, essa dificuldade é amenizada em virtude das diversas camadas de influência que ele sofre e também é agente, criando símbolos na indumentária desse ritmo e envolvendo maiores cuidados estéticos por causa do seu grande alcance social, na maioria dos seus nichos. Em contrapartida, quando se trata do figurino de algum personagem, é mais fácil se ater ao texto e ao contexto do mesmo. Por fim, ela afirmou que não se envolve na criação do Design de Moda e não tem uma marca nesse segmento devido à falta da formação técnica necessária para fazê-lo.
            Antonio Schuback é stylist do Dream Team do Passinho, um grupo musical e de dança que fechou o desfile da marca de beachwear carioca Blue Man no evento Rio Moda Rio (junho/2016). Sua caminhada no mundo da Moda e da Música começou por influência de sua mãe, que ele considerava um ícone. Para poder ser conhecido no meio, ele contou com a ajuda da namorada para alimentar uma conta no Instagram® com seus looks do dia. A partir disso, as portas começaram a realmente se abrir e ele começou a desenvolver alguns produtos. Por sua habilidade inata em combinar estampas, ele foi chamado para integrar a Rede Asta, que tem um projeto social de empoderamento feminino através do artesanato, formando novas empreendedoras. Como os materiais usados na confecção dos produtos é doado e, muitas vezes, está protegido por direitos de propriedade intelectual, sua contribuição foi essencial para ensinar as artesãs a inovar em sua arte, atendendo a requisitos jurídicos e criativos do negócio. Atualmente, ele estuda Design de Moda a fim de suprir o conhecimento técnico que lhe faltava.  


Antonio Schuback, Marina Marins, Marina Franco e Yasmin Vilhena. Foto: Marilia Pontes

            O talkshow do dia teve como tema “Design e Styling: a influência da Música na Moda” e contou com a contribuição de Adriana Bozon (estilista da marca paulista Ellus), Carol Roquete (stylist da cantora Anitta), Karina Mondini (estilista da marca carioca Farm) e a mediação da jornalista Maria Prata. Ele foi aberto por Roberto Meireles, que comentou sobre a confiança necessária na equipe que planejou e concretizou o evento, dos profissionais da Moda e da Música para continuarem investindo nesse ramo e de todos os brasileiros, apesar das dificuldades que o país vem enfrentando. Ela é necessária para manter, mas também para transcender e foi esse estímulo que o Instituo Rio Moda quis salientar no RMDI 2016.


Carol Roquete, Adriana Bozon, Karina Mondini e Maria Prata. Foto: Marilia Pontes

            Adriana Bozon palestrou a respeito da relação da Ellus com a Música. Essa marca, de São Paulo/SP, foi criada em 1972 por Nelson Alvarenga, que começou vendendo camisetas bordadas e, desde a origem, já tinha uma identidade muito forte ligada ao rock e aos festivais como Woodstock. Ela foi responsável por criar o primeiro jeans brasileiro utilizando pedras na máquina de lavar, quando o índigo ainda não era usado no seu processo de fabricação.

            Na música, ainda é muito marcante a contribuição da Ellus. Tudo começou quando, no final da década de 1970, foi criado o selo Ellus Sound de LPs. A partir disso, a marca começou a: patrocinar bandas como a Made in Brazil (punk e rock) e os Novos Baianos; incentivou artistas nacionais usando suas músicas em comerciais na televisão; na década de 1990, incentivou eventos de Moda como o concurso The Look of the Year da Ford Models; fez parceria com artistas, como Arnaldo Antunes, na criação de coleções-cápsula que trouxeram, pela primeira vez na casa, a discussão sobre o pagamento de royalties proporcionais à venda dos produtos; em 2012, ter criou a banda Ellus para seu desfile apresentado no Ibirapuera, inspirado nos grandes festivais de Música; além de, 2015, ter sido responsável pelo estilo da turnê Sarau de Carlinhos Brown, que fugiu completamente do escopo de trabalho deles com o rock. Cabe, inclusive, destacar que essa marca é conhecida pela numerosa variedade de licenças de marcas de bandas que possui e são periodicamente usadas em produtos vendidos em todo o Brasil, seja por lojas próprias ou multimarcas.
            Perguntada sobre como é o processo de criação da Ellus, que tem uma identidade tão forte sem ser caricata, Adriana respondeu que é necessário ter uma boa equipe; trabalhar bem o nome de marca e reforçar a identidade internamente; conscientizar os seus colaboradores sobre os pilares daquele negócio; estimular o brainstorming em equipe; ter ousadia e se despir de preconceitos e manter o ambiente urbano, o DNA São Paulo sempre. Acrescida a isso vem a Música, responsável por complementar com a emoção sentida até aquele momento culminante, que é o desfile.   


          Adriana Bozon. Foto: Marilia Pontes

            Carol Roquete é stylist e, por 10 anos, trabalhou quase que exclusivamente com editoriais de Moda. Há cerca de um ano e meio, ela iniciou um projeto de styling com a cantora Anitta, a fim de superar a imagem do funk que deixou de ser seu único estilo musical.
Primeiramente, ela relatou como foi o início dessa experiência nova com a Música e revelou que seu trabalho partir da busca de referências de estilo de artistas pop internacionais – como Madonna e Rihanna -, além das cores alegres e vibrantes presentes na cultura japonesa. Em função da atuação da Anitta com o público adulto e infantil, esse equilíbrio é necessário para que ela melhor se apresente ao público. Essas ideias eram explicadas e discutidas com a cantora, criando uma relação de parceria baseada no respeito e com foco no cliente. Além disso, sobre esse ramo de atuação, Carol destacou a importância de planejar a mudança de estilo e comportamento a longo prazo e ir concretizando as etapas devagar, bem como de quão é necessário ter cartas na manga e jogo de cintura para lidar com acasos. Superada a dificuldade do início e tendo conseguido “limpar” a imagem da cantora de excessos, atualmente é mais fácil para a Anitta ser vista como representante de marcas de luxo como Moschino, Dolce & Gabbana e estilistas como Alexandre Herchcovitch. Inclusive, ela contou que essa cantora está criando uma coleção de jeans!
As mudanças na Anitta – tanto de trajes, quanto físicas - têm sido veiculadas nos mais importantes veículos de Moda do país. Sobre as críticas ao guarda-roupa de sua cliente, Carol esclareceu que lê todas, embora ainda não saiba lidar muito bem com as negativas.


                                                            Carol Roquete. Foto: Marilia Pontes

Karina Mondini, apesar de paulista, é responsável pelo setor de Estamparia da Farm, que é uma marca carioca, criada em Copacabana, dotada de uma identidade muito forte, focada na jovem da Zona Sul do Rio de Janeiro. Com pontos de venda em todo o Brasil, a Farm é um caso clássico, segundo Maria Prata, de que “o ponto de vista da criação não determina o público consumidor”.
Apesar de estar completando 20 anos, a Farm, que começou sua trajetória na Babilônia Feira Hype, muito conhecida e frequentada nessa cidade, fez, somente em 2016, sua primeira parceira com uma cantora. Céu que, além de consumidora, era fã da marca, é, segundo Karina, uma representante da marca, o que foi decisivo para que o projeto fosse levado adiante.
O processo criativo foi iniciado sem a participação da Céu, a partir de duas fotos do acervo pessoal dela (uma delas está abaixo) e de outras referências coletadas em ferramentas como o Pinterest. Depois disso, essa cantora participou da criação da coleção-cápsula, inclusive com desenhos que ela mesma criou e foram estampados em camisetas. A estilista destacou que o projeto de coleção é levado muito a sério porque todas as inspirações são “filtradas” e muito direcionadas para atender ao padrão Farm, que é colorido, fluido, com bastante informação...enfim, é brasileiro.


Já esgotada, a coleção “Velvet Cajú” recebeu esse título porque a Céu costumava tomar licor de caju com sua avó, o acento no “u” é para homenagear o nome da cantora e o veludo foi para demonstrar a atmosfera lúdica em que ela está inserida. Todo esse processo coincidiu com o lançamento do novo CD da Céu chamado Tropix, que também apresentou mudanças no estilo antes seguido por ela, mostrando que o rock também a influencia.
Por fim, Karina contou que o próximo projeto da Farm é montar araras específicas representativas dos diversos Estados brasileiros, a fim de misturar o estilo dessa marca aos estímulos nacionais.

  Karina Mondini. Foto: Marilia Pontes


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